14 de dez de 2014

não escrevo

sim eu poderia escrever cantigas milongadas na forma dessas palavras ocas que aqui transfiro de um senso de unidade intacto, mas não garboso de tal parâmetro realístico, a unicidade é incerta, como qualquer parte infinitesimal da realidade, e não há quem ponha a mão no fogo contra isso.
mas não não as escrevo pois como a incerteza, exemplificando-a sem usar a mamãozice da ciência esbugutadora mental adorada pelos que já mataram deus mas não mataram newton, insipidamente oblitera como um grande fluxo torrencial que poderia ser antevisto por olhares mais apurados ou por olhares fechados, impondo o mais puro e sublime caos.
e esse caos é o ritmo que dita o porquê
assim não escrevo

4 de dez de 2014

Ovelha e os lobos

sorridente Ademir Ovelha entrou numa jaula de lobos com duas laranjas na mão, totalmente inadvertido das extremas condições perigosas que poderiam sobrevir sobre ele, e quando as ideias de medo não transpassam alguma glândula responsável não se sente qualquer insegurança e por isso não se pode negar que risonho  Ademir Ovelha estava, apesar de que, se nos colocarmos no lugar de Ademir Ovelha,  seguindo fielmente sua ótica veríamos que não ele estava sorrindo por estar feliz mas sim por algo semelhante que seus pensamentos únicos e pessoais conferiam à sua vida, no fim é apenas mais um costume, talvez ele possa até se incomodar com isso. Porém a realidade fiel crua e fractal mostrava que Ademir Ovelha não tinha realmente nenhum motivo para preocupação, pois após adentrar pacificamente no recinto lupino para quem pudesse estar observando o dito espetáculo dessa infinitesimal parte da vida , pois afinal tudo não passa de um grande teatro,  não veria reação nenhuma por parte dos lobos, indignado o observante se sentiria caso não soubesse que esses seres cheios de caninos, músculos lupinos, olhos de lua e rabos sacolejantes intermitentes  não eram lobos. Nem sequer imaginavam que sua existência nessa terra englobada pela estratosfera que ainda dividimos era vocacionada em um cotidiano lobo. Ademir Ovelha cuja presença em um covil de lobos seria certamente sentida, nomes são símbolos poderosos e quando alguém os dá  provavelmente o dão com alguma expectativa podendo diferenciar algum que outro detalhe rotineiro, como este em questão,   passava incólume por esse lugar certamente tenebroso, em outros tempos que não este, mantendo toda a segurança que aquele dia como qualquer outro passava, sem muito espírito nem combatividade, sua última e única expectativa de mudança e atipicidade diuturna era amadurecer aqueles pêssegos de um pé que cegamente imaginava só ele conhecer. Lobos e pêssegos não parecem ter muito em comum, nenhuma relação que os interconecte, mas isso sob uma ótica que desconhece muitos os pareceres da realidade que Ademir Ovelha estava a viver e nem sequer notava. Encontrava-se num lugar cheio de lobos que não sabiam que eram lobos mantendo suas esperanças em pêssegos que por serem verdes ainda não eram honestamente chamados de pêssegos, faltavam ainda miligramas de frutoses para Ademir Ovelha conferir-lhes tal título, portanto ainda não eram pêssegos. Então não pode se dizer que os lobos não sabem que não são lobos, eles sem sombra de dúvida  tem grandes possibilidades de cultivarem pensamentos abstratos profundos que os leva à conclusão correta sobre sua natureza, mas com seus olhos usados para observar o horizonte, olhar pra fora e não enxergar nem ouvir (não deveria entrar no mérito de não diferenciar os sentidos de forma a torna-los limítrofes entre si  e sim corroborados pois ambos são responsáveis por fazer-nos compreender porcamente essas ondas para não me tornar enfadonho, porém tudo são ondas não há muito que possa ser feito) o que realmente está acontecendo. E assim sobre vivem numa irrealidade imaginária, não que isso seja facilmente identificado, se seres humanos estão corriqueiramente perdidos entre essas duas inconstantes: a parte real e parte a parte imaginária, porque lobos verdes não poderiam estar também?

2 de dez de 2014

desequacionamento

Abandonei as louças
vou comer
direto da panela

no estudo do estado
escasso um, escasso tudo
bem dizer homologado
cadê eu tu angustiado

da força do vento servido
soprado barrento da terra vermelha
bem fluído riso
bem fluida vida
liberdade às torrentes rotacionais
à parte real ou imaginária?

9 de nov de 2014

do sol fálási

cantigas de muito mil
que milhões refez o desfeito
zero, conto daí, chego em si
feito meu peito tal eito
pra enxada cega carpi

dos sónegos que escrevo
conto a nenhuma parada
reclamando do feijão feijoada
marmelo martelo marmelada!

mendigas de cru jacaré
crespo duro casco teu pé
chinelas azedas no sol do ré
tudo deve tanta fé
pra no fi acabar em mi.


3 de nov de 2014

lua harmônica vermelha

seria conveniente a exatidão de todas essas algumas coisas. convincente decisão abraçável por outro abraço. palpável nos dedos quando encostam, encostam. venha até o meio do escuro que andarão o outro meio. e no fim terá um meio e escuro a luz será. renitente em seu torpor caminhante verdejante, infrutífero. sim nessa árvore os seus frutos estão na copa. sim essa árvore nunca derrubou seus frutos, não irá larga-los em qualquer mão tão facilmente. o grito nunca será escutado se não for gritado, as lágrimas não caem se não forem choradas. o sonho só sonho é se só sonhado for. pra ser vivido, caminho até o meio, talvez chegue no fim sem encontrar o meio. se o topo mostrar-se vazio, pulo. planarei pra sempre pela imensidão.

30 de out de 2014

amorfismo físico

rede arte planetária
mineral natural água da fonte
curta todos os seus sonhos 
colchões duplex
hora de morfar
enfia o campo elétrico no cobre
Vitória resistência
Viva em Vida
pra não alongar no módulo
meus fios atirados
barraca atrás do armário
não durmo ensacado há dias
ma toalha amarela enxuga
que o tempo ainda não marcou
o peito aberto 
a turbulência.

24 de out de 2014

mercado raciocionio

Quando entrares
no mercado do raciocínio racional
largue seu humano social
torne-se um animal
compre conhecimento
na quinta prateleira
destrua o confinamento
de sua mente perspicaz
Com uma dose de sabedoria
Que alguém lhe entregará

Quebre o cálcio
de sua glândula pineal
destrua com fulgor
uma ou ou outra babilônia
solape paradigmas
desvincule-se totalmente da moral
desassocie seu ego pobre
e saia dessa jaula fétida
Que lhe abrigou por tanto tempo
Deixe de se vendar
Com tantas pútridas mentiras
Com tantas verdades falsas
olhos vendados não veem pra frente
muito menos para trás
olhos distantes só veem o longe
desaprenderam a focar..

Não venda o mais necessário
não compre o mais importante
da feira que vos falo
por do sol é cortesia

22 de out de 2014

ufo a guerra

galhos ainda ontem grandes
hoje verdeiam na fogueira do chão
em pedaços esturricados de fibra de carvão
ladeiam existências esquentando os dedos
e as pobres pupilas sedentas de luz
nobrecem castigos nas pontas 
que tato já não tem não
pelo contato arredio
ou o sorriso do nobre navio
que nas águas andou e no fogo
queimou.

9 de out de 2014

existe um tal de  pré-ultimato chamado verbalização
a lua e suas marés
os fluidos suspensos
em suas cabeças andantes
só veem luzes na noite
são o motor da terra
seu caixeiro andante
cabrestos voantes pairam
sob existência do olhar
que miram pra frente
enxergando a própria nuca


27 de set de 2014

poesima simples

traça a linha
épslon zero integral de linha de E de a em notação vetorial é igual a carga;
épslon zero integral de linha de E de a cosseno de 0 mais E de cosseno de zero é igual a carga;
densidade de carga superficial é igual carga por area;
carga igual densidade de carga superficial vezes area;
dois épslon zero integral de linha de E de a é idêntico a densidade superficial de carga vezes área;
duas épslon zero vezes o campo elétrico integral de linha da área transversal com certeza assemelha-se a densidade superficial de carga vezes área;
outro e um épslon zero e o campo elétrico e a área é que nem dizer densidade superficial da carga vezes área;
um par de épslon zero e o campo elétrico não é nem mais nem menos que a densidade superficial de carva vezes a área dividido pela área transversal que é a mesma coisa;
dois épslon zero sim o campo elétrico vai junto e isso é que nem a densidade superficial de carga;
sim sim sim digo campo elétrico e isso é a densidade de carga divido por um casal de epslon zeros.
chapa, não condutora.

22 de set de 2014

rezumo

vou pra júpiter facilmente
por que ficaria preocupado
em escrever todo exado
ou capitanear uma só vida
em busca de duas!?
inexplorado afago
cabeças retesadas
sob pescoços endurecidos
em cadeiras eternas
sem andar muito adiante
em seu trono cingido
.
o choro inefável
dos mendigos esculpidos
das aranhas entristecidas
das araras pretamarelas
inesgotam  na zombaria
dos tucanos,
cabra-situação.
.

solitários seres
vivem com os olhos
aproveitam em ilusões
as flores
enquanto não são pó de mico

19 de set de 2014

cantaram a vida
em paragens perdidas
soluços afastados 
cabeças repartidas
no sonho da noite, da chuva no rio, 
o cavalo partido 
com a perna amassada
para raios nos grandes chifres
mamíferos demográficos 
cercam o verde
pintam o cinza com 
uma cor diferente
palavras perdidas 
sem terra nem teto 
nem chão 
só estrelas desfocadas
e uma grande caixa
repleta de sonhos 
de lama de chuva de limões:
Dissolvo com o fim de sonhar
Libertando a intuição
Selo a entrada da abundância
Com o tom espectral da liberação
Eu sou guiado pelo meu próprio poder duplicado
'Saio das estruturas e entro na abundância da liberação.'
Kin 63 - Noite Espectral Azul

12 de set de 2014

poderia ser de qualquer jeito mas vai ser assim. Meu dinheiro está cheio de animais. Meus animais estão fartos de meus dinheiros. Coelhos custam 12 reais. Poderiam ser 12 cafés sem gosto. Cafés com gosto de dinheiro. Plantarão café aqui um dia. Dia quente, gente bronzeada. Sorrindo mesmo que pra dentro. Sorrindo talvez só pros dentes. Dentes sujos de café. Com o sol no leste e a lua no oste. Sol verde lua amarela. Cafés marrons, mares verdes. Mas as estradas ainda de escuro piche, onde animais não trafegam. E o dinheiro trafega mais rápido se maior for. E o coração aaah coração, coração, aah coração canta um jards qualquer quando o fim é mais rápido que o começo.  Quando assim são, repousa noutra clareira do seu céu pintando o mundo com uma unha do dedinho, perde o fôlego, não olha pro chão. Chama estrela segura a mão, a própria, a própria, respectivamente como se diz, regue a horta antes da partida, não é preciso falar pra seres precavidos, e já não falo mais pra mim porque parei de me escutar a muito tempo.

22 de ago de 2014

Eu encontrei dúzias de macacos hoje na porta da minha casa

Eu encontrei dúzias de macacos hoje na porta da minha casa amarela que tem um grande ipê amarelo florido na frente cujo cheiro inebria todo e qualquer transeunte que passa por aqui Olá gritei para os símios sorridentes que me olhavam curiosos Olá eles responderam em uníssono animado conheciam a última flor do lacio por terem lido macunaíma Vamos passear suba nessa arvore Sim eu subi na árvore e juntos pulamos de galho em galho passando pelo meio das folhas colhendo frutos primaveris e soltando um macaquear digno das grande peças epopeicas de Homero caso de sapiens passasse ele a ser símio mas macacos são muito velozes eu que havia esquecido a mão esquerda em casa estava muito atrás dos meus novos amigos ja me sentia novamente solitário tinha gostado dessa nova gente que não precisava embalar suas coisas em plastico estranho não ter saquinhos pra guardar as frutas colhidas das árvores que mercado deve ser esse enfim ja me perdia em vãs devaneios quando  de relance escuto o grasnar de um tucano Ô tucano viu os macacos pra onde foram? Vi meu chapa há umas 3 luas lá no lago do timbó devem tá por lá venha aqui pegue uma asa emprestada pra por no lugar dessa mão maneta respondi Bendito tucano sua bondade é de ouro Ouro que ouro prefiro muito mais uma bondade de romã adeus camarada e foi voando em direção à um destino qualquer que os tucanos tem traçados em sua vocação a jornada continua com uma nova injeção de ânimo que me resplandecia a arcada dentária e fazia mostra-la pra todo mundo ou seja as pitangueiras bananeiras abacateiros juremas trepadeiras até pra araucaria carrancuda e pra onça com dor de barriga que comia folhas da floresta e ria de volta pra mim mim que já andava meio diferente pulava com uma mão me agarrava com outra voava e nisso ia eu indo pensando ninguém vai acreditar nisso mesmo mas não vou aumentar a história com mentiras não os macacos podem estar me observando eles me cativaram agora deveriam cuidar de mim sim é obviamente a sua obrigação.
Foi quando se fez noite e de macacos nenhum rastro de lago do timbó nenhum também isso nem deve existir deveria ter perguntado pra uma coruja não pra um tucano tucano gosta mesmo é de lucro de hierarquia de grandes fortunas mas a noite esfriou e eu que saí de casa sem lenço nem documento não tinha mais calor nenhum muito menos meu registro geral o que fazer num estado pré calamitoso desse estilo era a grande questão e num arroubo de desespero me abracei numa paineira rosada florida e suspirei um profundo E agora? então a floresta resolveu me responder com um profundo silêncio todos os grilos cigarras pernilongos lagartixas centopeias ariranhas e gemidos de amor se calaram e a escuridão se tornou vazia de sons e cores o que não impedia de sentir a vida que ainda palpitava os cheiros o sabor estavam todos ali pra língua mais próxima tocar sentir lamber e foi nesse silencio de mosteiro que já indignava qualquer traço de senso de realidade que ainda me era possuído que escutei vindo de dentro de mim próprio uma suave nota prolongada baixa algo como um ohm que os chapeleiros usam tanto em suas viagens extraterrenas Pronto agora sim fiquei maluco mesmo o que pensará minha mãe meus tios o padeiro que me vende pão a moça do mercado que pesa as frutas e sempre me nega um sorriso? era o que  se passava por dentro dos meus bigodes castanhos até escutar Acalme-se ínfima criatura e quando isso proferiu-se todos os gritos de todos os animais pararam de parar de sair de suas gargantas e foram regurgitados de uma vez só isso era ensurdecedor mas dentro da'alma eu ouvi sim pois se em algum lugar se escuta perfeitamente bem é dentro da propri'alma Eu sou muuuuuu seja bem vindo felizardo e notei que quem falava dentro da minha alma era a sombrosa paineira cheirosa sorri já tinha certeza que não estava a enlouquecer Grande mestre estou com frio com fome com sono e não encontro meus célebres companheiros macacos que tanto me davam alegrias Você tem uma grande alma mas é fraco respondeu tempestuoso ser rosáceo Mas vou lhe ajudar e assim um dia serás forte.
E da paineira um grande portal se abriu azulado como saturno e brilhante como uma ideia desci torto pousar com uma asa só nunca foi tarefa fácil sem pensar duas vezes nem vacilar entrei no portal diretamente com a cabeça que aprende as coisas primeiro que o resto do corpo e quando vi sorri o largo riso dos macacos pois todos eles estavam lá ao redor do lago do timbó festando como é peculiar em suas vidas pulando ao redor do lago cintilante trepando nas árvores e dando cambalhotas no ar pairando alguns segundos como portentosos beija-flores ou simplesmente sentados em rodas comendo bananas e queimando flores então corri como se tivesse pernas pela primeira vez como se corresse por uma medalha de romã como se corresse atrás de um grande amor fiz-me num grande salto e caí no rio solidíssimo fluído e quando abri os olhos embaixo d'agua foi como se estivesse dormindo foi como estivesse no paraíso embasbacado olhei para cima e vi pela primeira vez o que já tinha visto antes os macacos eram meus sonhos que embalados em perfeita sintonia passavam por cima de mim tinha sonhos de ontem de anteontem de hoje alguns que não reconheci deviam ser os de amanhã mas os sonhos de amanhã não servem pra serem sonhados hoje fiquei nessa de admirar meus sonhos peguei alguns abracei senti o gosto de ilusão porém uma epifania desanimou-me fortemente até uma coruja parda com ar benevolente e magistral pousar do meu lado Querida coruja pedi Meus sonhos de ontem estão ali os de hoje estão ali os de amanhã estão ali mas eu não vi os sonhos que deixaram de ser sonhos e com um pio olhar de decisão ela respondeu Meu caro os sonhos que deixaram de ser sonhos são o que você é hoje.

11 de ago de 2014

n

não vou escrever poesia
posso me desviar do foco
tenho que viver no mundo real
longe de qualquer amigo nagual
não olho pro lado
pois seria trapaça
encontro a constante
mas não a replicante
ó dúbia desgraça
ponho-me ajoelhado
com o pescoço prostrado
6 é o número do homem
ao qual vivo vassalo
e me diz
e aponta-me se
estou certo ou errado
feliz ou fadado
a falhar novamente

29 de jul de 2014

ave eu, eu ave

engrandeço minhas próprias pontas
nos próprios abismos me abraço
procuro no soturno
quadros brancos para enche-los
de tinta oca colorida;
pintando percorri o infinito
a imensidão, 48 milhões
de milhas, anos e cavernas
vi morcegos, sementes e mendigos
e nascendo na rocha dura
um coração sangrento.

dos meus idos não me tenho de volta
pássaros comeram as migalhas
que sobraram de mim no caminho
o tudo e o nada são a mesma coisa?
vazio que é incontável
incontestável:
talvez eu seja o pássaro.

20 de jul de 2014

olhos nos olhos

translúcida vivalma ossada
algures queiras esgueirar-te
por entre os impróprios grilhões?
sabes por direito que o vento lhe some
conhece por compaixão as
próprias mentiras deslavadas
erguido em tronos dourados
vives embaixo da terra.
Ergue o doce dos teus olhos;
não vim pra esse planeta
pra viver longe da lua.


16 de jul de 2014

(círculos sincrônicos)

caminhos redondos
sem pontos finais
giros girados
no viro da vida
janelas abertas
já movem moinhos
somam-se dois
resultam em zero;
é só o infinito
visto no horizonte

1 de jul de 2014

acabaram-se os cigarros
meus olhos claros
cegos
meu nariz torto
escondeu-se
amanhã novamente
vai ser difícil sair da cama,
ainda não comprei
a minha alma

24 de jun de 2014

labaredas

amanheci com o corpo chamas
fogo verde azul e amarelo
bati descontente no meu peito
com medo sonoro de findar-me
sentindo o calor ferver meus olhos
orelhas desfazendo-se em cinzas
meus ossos brancos ficaram vermelhos
escarlate
e minha mente calma e fria
agora flui plasticamente
rios de lava sem mais perguntas
não há mais certeza que estanque
o vento dos meus sonhos
alimenta o fogo desordenado
rolei no chão desesperado
enchentes direcionaram-se a mim
mas perpetua é minha ignição
uma vez em frondosas labaredas
ilumino até a escuridão

8 de jun de 2014

(chorinho inconsequente)

(chorinho inconsequente)

todos são estrelas
todos são elétrons
quantuns de humanismo torto
indivisível
mas o sorriso separou-me
mim em dois perdidos
dois meio seres
com dois bigodes inteiros
olha
vejo-me fugindo
correndo amarelado, amarrado
em mim mesmo
não fujas agora
vamos conversar
sente-se embaixo do meu chapéu
não se nega um presente
muito menos um abraço
o vento sopra frio,
a pressa em juntar-me
faz-me esquentar
derreter por aqui
e transmutado no rio
fluí junto finalmente
pro mesmo lugar

2 de jun de 2014

sagrou-se saturno

sagrou-se saturno
em jornada atlântida soturna
sob maios de lua escondida
na densa névoa crepuscular
que ritmava a palpitação
deleitado, com os olhos castanhos
magnífico
suprimia a existência em sublimação
sentindo afáveis cheiros
do sol e da terra em transfusão
brindou ao escuro e á escuridão
e só entre muros de tijolos
desfez-se da luz das estrelas
planou todo seu caminho mas
na primeira montanha nevada
ergueu-se às alturas das nuvens
esgueirando dos falcões
e dos miseráveis fios de luz
famigerado campo elétrico
minando pupilas ensandecidas
findando absoluto ardor.

26 de mai de 2014

a cada gole me despeço
de mim que me valia tanto
e desavisado do que sinto
tu, algures vacilante
permeia minha vida, relutante.
mordiscando o aço que m'esconde.

21 de mai de 2014

quando abrem-se as portas a corrente de vento joga muitas coisas pela janela

ultrajes vestidos em pelo
miragens do verde amarelo
de trago frouxo estrago
seu cabelo todo pro lado
mais nada foi rotulado

só vivo de mim mesmo
não me acho doutro jeito
e no espetáculo que me apresento
o mágico vive sorrindo
enquanto as feras vivem
com os dentes esvaindo.

15 de mai de 2014

Esqueci de lembrar de pensar todo penso é torto

vou torto de lado, assim meio alquebrado
sinto o faca que empata muita jogata
do lado esquerdo vejo pilastras de luzes
estourando os sucessos com seus obuses

respiro a fumaça queimada do óleo denso
cavalos-vapor não comem grama
não há mais alazão com fama
nem com pinta de revolucionário
napoleão há muito anda de hilux
pra compensar sua baixa estatura
sempre fiel à república
mas vive com a testa enrugada
pelos juros do seguro de vida

horus solitário no limbo
passa seus dias a dançar
rotulado de malvado o dedo foi apontado
não sabem que levantará
e no destino de deglutir deuses
verdes notas engolirá

reto ando batendo nas paredes
sinto o cheiro da vida ao lado
que me olha gritando nos olhos
cantam que não escutas o trinido
a despertar do cômodo sacolejo
caio sempre no corpo que habito
afogado dos prantos não aliviados
onde sirvo pra ser errante
respiro trôpego e vacilante
das favas que muito contei
metade desperdicei

3 de mai de 2014

planos paralelos

mugidos ávidos por ouvidos
chuvas esperadas pacientemente
quente o dia, os dejetos caídos
Um ermitão sorridente
Saído de sua cavernosa
Toca do mundo ocidental
Achou a luz formosa
E o ninho de cor espectral
Sua mente em estado selvagem
Viu misteriosos chapéis de saturno
que com suavidade ingeriu
E no seu contato noturno
seu ego assutado, partiu
dourado era seu destino
gaia adotou-o em seu seio
Brindou de sua inteligência suprema
agora com deuses e seus problemas
ele ceia toda noite.

1 de mai de 2014

notícia no jornal de hoje

Sociopatas cantores de ópera foram os mais novos acusados de comerem todos os sanduíches da repartição pública, recém construída do lado do bar da Santa, onde os valores morais e cristãos são muito bem respeitados. Bar que os cantores certamente não frequentam, afinal são sociopatas, preferem tocar flauta na beira de um rio ou de subirem numa árvore dialogar com os joãos-de-barro. Mas, por mais repugno que esse comportamento não usual causa no sentimento retrógrado pré-conceitual negativista dos seres de espécies limítrofes (não coloco a mão de ninguém no fogo pra defender a ideia de serem criaturas da mesma espécie) os cantores costumam serem bons amigos dos coelhos. Talvez por terem idealizado a ideia de basearem sua dieta em cenouras, apesar do coelhos, depois de descobrirem essa espirituosa causa da amizade, gargalharem durante duas semanas, pois gostam muito mais de couve. Parentes distantes contaram que os cantores foram criados num belo vale, seus pais criavam gado e vendiam cogumelos na feira da cidade, e com isso iam levando da maneira mais fluida possível , porém (muitos poréns) havia um problema: Eles não tinham televisão. Por isso eles foram criados soltos pelo belo vale, colendo cogumelos pra ajudar na renda da casa (cogumelos eram bem bastante preciosos na época) e aproveitando o vultuoso rio das redondezas. Mas foi na parte intocável do lugar, num bosque de mata virgem com grandes possibilidade de existirem duendes morando, que os cantores (explicitamente, sim, são irmãos) aprenderam a cantar. E foi uma criatura ressoante que os ensinou, intrépida gralha azul espertamente fez o negócio da sua vida: ensinou os irmãos a virarem irmão cantores a cantar em troca de pinhões. Viveu 10 anos deitada na numa rede com o dobro do peso normal de uma arara azul, mas nesses 10 anos deitada, demonstrou todos os teoremas da musicalidade que poderiam ser feitos numa faixa de pressão habitável ( esses teoremas viram mitos em regiões com a pressão atmosférica muito baixa). E quando os cantores fizeram 18 anos seus pais saíram de casa pra ir morar numa praia deserta, denotando a derradeira necessidade de inventarem suas vidas no que mais sabiam fazer: cantar. Deram tchau à gralha azul e doaram "sua casa" para os duendes. Ao chegar no que os seus pais definiram como vicilização (corruptela tentando ser jocosa com simples trocas de silabas) viram-se perdidos, pois não conheciam as pessoas. Nunca tinham assistido TV, não sabiam dialogar minúcias fúteis por isso foram logo escanteados por todos o que eles tentaram cercar. Obviamente, foi a grande faísca para se tornaram sociopatas e cantores de ópera. Só sabiam conversar romanceadamente, tinham sido alfabetizados com os livros do Victor Hugo, nenhum dos seres transeuntes aguentava os monólogos de meia hora de cada irmão analisando profundamente (e verbalmente) as ideias que perpassavam pelas suas cabeças. E, como a última dupla de cantores de ópera do planeta havia morrido há 3 anos, eles resolveram assumir esse negócio meio falido. A mestre gralha ficou meio triste quando os duendes contaram a situação dos irmãos, mas após pensar um pouco recordou-se que o último hermeto havia milênios que não era visto, e acomodou-se esperar pela morte. Bem na verdade eu duvido que tenham sido os cantores que comeram os sanduíches, pois a acusação era que havia um resquício de salada no 2 molar de cima da direita na boca do irmão que nasceu primeiro, e isso não deveria ser indício de culpabilidade. E por andarem constantemente sorrindo, o bando de policiais oxtensivos (dx=ds)  acharam certamente, para a segurança de todos os carrancudos que os cercavam que deveriam prender o quanto antes esses delinquentes contrários à justa moral demonicrática.

25 de abr de 2014

sob néctar de morfeu

sim eu vim aqui para escrever
riscar esse papel com essas letras
digitalmente não preciso nem olhar
meus dedos levianamente apenas
dão suaves batidas
numa tábua preta
homo sapiens operando máquinas
Vendo luzes a todos instantes
diferentes de estrelas que fumaceiam
o pequeno planeta que deu certo
abriga grandes macacos em transição
usarão a mente sem medo
e seus nobres instintos pagãos.
Já subiram demais na evolução,
pra solaparem-se de qualquer jeito.
ascenderão ainda mais
atropelarão esse tumulto inculto
viverão como os rios que são.

22 de abr de 2014

entropia

assanhado por qualquer motivo
vou ter que escrever isso, não tem jeito
os mares do sul viraram plantação de trigo
do ouvido deu pra se ver muito bem
inabalável entropia não-dantesca
as saias fizeram-se lenços
o vinho da água partiu
alimentando flores com bicos de águia
 os nobres fizeram-se nômades
e com certeza nenhuma roupa
para no varal.

não mais se estuda
basta só aprender
pois até os tubarões
provaram um verde brócolis
E os burros dão aulas universitárias
zurrando

a intrepidez virou medo
as fortes asas dos albatrozes
são agora velas de navios
e o modo de vida foi imposto
já que gosta tanto de mar
que reme pra sempre em uma galé

vivendo com as pupilas contraídas
a luz apoderou-se da sua alma
fogueiras reluzentes são raras
andam dizendo que o fogo molhou-se.

13 de abr de 2014

domingando

Tampas de garrafas claras
isqueiros de magnitudes amarelas
pó cinza coros e velas
romances de uma vida
escritos de 2 semanas
perdidos em 2 períodos

O sol quente de um dia frio
a garganta fechada num corpo saudável
O vento fluido espectral
não corre seus dedos pelos cabelos
a janela inquestionavelmente fechada
há muitos escapamentos por aqui

espesso como um tijolo
me interponho como uma rocha
como velhos barbudos com machados
que moram em casas de bambus
caçando porcos do mato
e colhendo sua própria erva

Exponho minhas matrizes energéticas
sôfrego intermito o cabisbaixo
seres que brotam do chão e da mente
seres risonhos sorrindo pro nada
procurando explicação, seja o que for
encontraram gargalhadas de vapor

flautas sussurrantes desmedidas
estonteantes notas magistrais
assopradas no fundo do mais vermelho
dos 7 círculos do inferno
no céu só tem espaço pra arpas
e conversas angelicais

sonhos que vieram da terra
ter o nascer e o por do sol
um galo companheiro,
dois lobos uivantes
pra cantarem o meu dia.


3 de abr de 2014

não quero mais pensar
sobre campos elétricos
cargas constantes que variam
de acordo com algum desejo
de um livro em preto e branco

Não quero mais falar
sobre coisas newtonianas
e suas invenções uniformizadas
diferenciando riscos reto de tortos
por invenções de relatividade de desenhos
de seres que nem mais o esqueleto
perdura por aqui.

Eu queria era ir dormir com as galinhas
e acordar com o cantar da aurora
escutando o sopro das árvores
ao invés das sirenes ambulantes
ter como luz os vaga-lumes
ao invés de passar energia
por gases tóxicos 
para criar um falso brilho
que contrai as pupilas
da futura geração de lagartos

21 de mar de 2014

caveiras sorridentes

piso no quente e denso
mar de lava fria esquálida
aço frio firme e tenso
segurando nossos corpos dependurados

somos apenas ossos
a carne desfez-se em tolices
até pensamos em salga-la
servir num belo churrasco
com as famílias os amigos e a maionese

mesquinho ninguém mais é,
os anéis dos dedos;
sobram hilariamente na ossada,
já não empunham espada
há muito se livraram dos medos
e seu êxtase enternecedor embasbacou-se
a plenitude teria cheiro de mel
seu sonho é o mundo
o céu fez-se na terra
não existe o perseguidor de abel
nem doentes de guerra
lucidamente estarrecido pelo que virá
no horizonte certamente se projeta
a nave não cairá, amará
e os que não a esperavam
pensaram, que coisa abjeta
esqueletos abraçados
com a vida que tanto amavam.

20 de mar de 2014

O levante de Gaia

as entropias unidas,
de todo um povo sem dor
as roupas do rei foram roídas
sua coroa jogada no calor
os mortos caíram ao chão
aos pares, aos dez, ao milhão
da guerra foi feito o sangue
do sangue insurreição
e por mais que hoje cantem
a vitória do mais fraco
do cinza claro reinando
sobre o imperioso verde glorioso,
não vai ser honroso
quando caírem por terra
e forem engolidos lentamente
pela última derradeira guerra.

17 de mar de 2014

Eu tenho uma estrela amarela

Eu tenho uma estrela amarela
dourada vive a brilhar
sonora e quente como o inferno
escondida do mundo moderno
mas com a entropia a irradiar
exterminadora e benfeitora
cura-me do tédio com mesma chama
que se faz pra criar carvão
não me dá nenhuma fama
nenhum prêmio ou ganha-pão
se esconde no fundo dos olhos
nobre sublime fogo perpétuo
pra não transmitir nenhum tipo de poder
aos cabisbaixos e decadentes símbolos
espíritos que não tardam morrer
ferverão na mais ardente fornalha
das milhões de estrelas iguais a minha
que unidas mostrarão ao mundo
o tamanho da fogueira que são capazes de fazer.

12 de mar de 2014

o vento no mangue

escusas e opulentas razões injustificadas
tem comovente certeza de suas certezas
No chão, no fogo, nas pedras calcinadas
há ilusões, verdadeiras miragens mostram-se ali
fugidas das suas sublimes pobrezas
o límpido paraíso sonham ser aqui.

Entrementes, mentem a si mesmo
escolhe o véu pra cobrir os olhos
incineram despiedosamente os espólios
e vivem a vida caminhando a esmo

E quando teus olhos refletem
no espelho prata pendurado na parede
vês apenas uma miragem
pontos distantes de um olhar de sede

Pois a lama já encobriu tuas razões
a estrutura afundou-se copiosa no lamaçal
a consciência vive a procurar ar
só há os sonhos
livres do barro, a planar.

6 de mar de 2014

poesia dos grilos que amavam demais o seu exoesquetelo

trouxeram minha rotina
embalada na luz elétrica
deram dois olhos brancos
e uma forma hermética

e remexo e desfaço e amarro
repenso, fabrico repuxo
o que não cai sobe nem desce
diminui quiçá nunca cresce

Meu mundo
meu fundo
meu gelo
armadura de chumbo sem fundo
em nenhuma mortalha
cabe uma fortaleza

espelhos que quebram não refletem
olhos biônicos fitam mas não olham
no óbvio o absurdo se refaz
se nem todo o tesouro se desfaz
pra aqueles que fugiram do motim
não deixem um xelim

16 de fev de 2014

a loucura que antes era sua companheira agora amedronta o viajante com seus estalidos

o que lhe recobre a alma
números vetores cadernos
fumaças, tragos modernos
sorrisos, olhares fraternos

coberto de lama
trancado em suas próprias defesas
não vê o vermelho do mundo
não há coração no fundo

já tem olhar taciturno
baixos olhos castanhos
com um brilho confuso
fruto de conspirações
e sonhos rotundos
alimentados de pôr-do-sol


13 de fev de 2014

s.

O diamante está no fundo do lago denso de petróleo, para viver fora do lago é preciso descer até lá embaixo lutar pelo diamante, e então submergir dos longos kilometros negros. 

Espero que eu saia intacto.

11 de fev de 2014

Saudações inter-mentais do submundo da consciência, relatos indicam que a situação está ficando cada vez mais caótica. Terminais nervosos do sistema gaia estão repletos da mais intensa virose cibernética já relatada  pelos estudiosos do ser interior. Situação está em fase de prometer ser inigualavelmente triste para as relações sociais, a vida sorridente e ensolarada e as diversas alegrias de um mundo colorido e repleto de inimagináveis possibilidades na sua luta contra a entropia total. Os filósofos astecas mudos do interior acreditam que há grandessíssimas chances de achar um forte antídoto para esse malefício mortal moral. Mas como sempre eles ainda não tomaram uma decisão que atacasse o cerne do problema, implodindo-o como um forte foguete em um céu de ano novo, continua-se nessa situação indefinida, onde comemos nosso tédio e arrotamos nossos sonhos.

4 de fev de 2014

utopias de grande paz

enternecedor  livro azul solitário
amarelo empoeirado
conta verdades há muito acreditadas
suas letras grossas e negras
contam histórias que hoje são piadas

Os grandes sem barba do mundo
Sentados em sua poltrona
reclinável
Entendem o seu mundo
com símbolos profundos
e insignificantes caixas cinzas
conservam visão lacrada
o pescoço endurecido
seu espírito combatido
pela sua própria espada.

Queimaram tais livros azuis
vermelhos e sem capa
os que tinham as florestas
e os grandes animais,
feiticeiros, diableros espíritos e guerreiros,
até gnomos marginais.

O céu de estrelas se apagou
luz na luta dos macacos
na orelha, por fio foi isolado
na atenção, por tela encaixado
as pernas por motores amarradas
com câmeras, suas nucas vigiadas.

cartuchos não serão mais recarregados
sem utopias de grande paz
mas o crescimento é contra a força
e a revolução não custa a começar.

29 de jan de 2014

embriagante

Nos confins apregoados 
escondidos dos surdos ascetas
que choram sua liberdade, enjaulados
buscando sua derradeira meca

sorriso roxo de dentes tortos
favas contadas não movem moinhos
cães idolatram as cores erradas
o que não amarela, azula

Há certeza no que digo
fulgura brilho no que conto
farto de tantas mentiras
escuto apenas o sussurro
dos esvoaçantes pássaros
como andorinhas
que desistiram de voar pro sul,
minha garrafa de cachaça
há muito que é de plástico.

No gosto azedo de tua boca
no canto morno do abraço
lençóis brancos que acordam no chão
cortinas abertas toco meu sol
Janelas fechadas:
a felicidade
nunca vai sair daqui

15 de jan de 2014

gravata

Brilhosa era aquela gravata colorida, não como testa de adolescente, muito menos como a barriga daquele peixe que leva isca deixando o pescador desolado com a perda de uma preciosa minhoca, mas sim como o sol em seu esplendor no topo do céu, como o rio refletindo a serena lua cheia, como a luz que bate na escura pupila que já não se apresenta mais o seu tamanho normal. Seus jogos de cores contrastavam espetacularmente, sublime e inexprimível em ditos corriqueiros, aproximando-se talvez da incompatibilidade de existir um grande arco-íris preto e branco. E como as grandes coisas e verdades do mundo, a gravata era um elemento dúbio único. Há aqueles a quem ela fazia sorrir, há aqueles que choravam ao contempla-la, como também quem embasbacava-se e prostrava-se inconformado sem entender coisa alguma. Não que a gravata entendesse coisa alguma do que estava se sucedendo durante sua perplexa existência , afinal, era apenas uma gravata, de um pano qualquer, e sendo de pano não tinha muitas afinidades com o pensar. É claro que essa conclusão pode ser precipitada, teórica e científica demais, pois muitos já a viram com um olhar meio atravessado, pensativo e profundo demais pra um ser sem lógica alguma. Provavelmente teoria de afeitos do Monteiro lobato. Inegável é o fato de essa dessemelhante gravata tinha um instinto. Um instinto animal, como o urso polar tem ao pular de uma superfície de gelo para outra, ouvindo a que ele se encontrava estalar, porém aplicada à uma gravata. O instinto animal de um pedaço de pano. Diziam os invejosos (e os garbosos também) que ela escolhia a quem ia se pendurar. Conto que causou a ira de religiosos de uma cidade do interior de nome F..., quando a gravata, em uma passagem pela hospitaleira e pacata cidade, resolveu se pendurar dois meses no pescoço de um macaco. Pior era quem acreditava ter o poder de controlar o estranho poder magnético da gravata, grandes burgueses transformavam-se em mendigos, a viver pelas ruas esmolando comida e cachaça. Tais desafortunados jogavam então a gravata para longe de si, culpando-a de seus infortúnios. Ela então, afeiçoava-se a outro mendigo qualquer, e logo esse marginalizado ser pulava vários degraus da escala social, passando a desfrutar do conforto do topo da pirâmide social. Isso deixava os estudiosos cabreiros e causava grandes enternecimentos na parte da sociedade que tem tempo hábil para gastar divagando sobre os gostos da gravata mais singela do mundo. Porém, há muito tempo que não se tem mais notícia dela, uns dizem que é porque as grandes corporações querem que não conheçamos mais a gravata, outros notam que a mídia daqui há muito não fala uma palavra sobre esse incrível poder. Talvez por que os ditos poderosos usam sempre uma cópia barata, sem alma nem cor, pendurada em seus pescoços porcinos. Outros dizem que ela apenas se cansou de toda essa conturbada vida que levava na sociedade e hoje pendura-se nos pescoços de indígenas da selva amazônica, de pescadores de ilhas paradisíacas da Oceania, até de golfinhos que vivem em praias desertas da África. Tudo pode ser apenas suposições de vãs cabeças que pensam demais, pois no fim, todos sabem e acreditam que a gravata retornará para estarrecer os corações ao redor do mundo. Mesmo que os que  não saibam, mesmo os que não acreditam.