28 de nov. de 2025

A calculadora parou

 Era um dia de calor como qualquer outro, onde se sua parado e os ventos são muito fracos para que forneçam um alivio temporário. Estava ali como qualquer dia, sentado como qualquer hora, pensativo, na laboriosa arte da sobrevivência, que hoje de tão forte e arraigada se tornou a cultura, fundiu-se com o próprio valor de ser: o existir se dá pelo trabalho. Gestando novos projetos e informações, na peleia sentada da correria mental, quando de repente, num arroubo de cliques e pensamentos, durante movimentos audaciosos realizados no teclado mais imponente e calculista de todos: o da calculadora, quando engatilhou de forma veemente a próxima conta aconteceu algo nunca antes visto nem sentido. A calculadora parou de funcionar. Não eram contas tão complexas, eram simples, rotineiras, corriqueiras, por quiçá até entediantes, mas sua ferramenta de poder, sua ligação com o mundo produtivo da matemática, que entrega o poder que basta sabermos os axiomas e os conceitos, pois o calculo ela domina eu seu peito cinza cravado de botões 1, 2, 3, 4, eng x² hyp sin log x³ ( ) =* e inúmeros outros: PAROU. Uma calculadora que leva junto a si o adjetivo de científica, é usada para manejar a ciência da repetição das contas corriqueiras, agora estaca como um burro que nem a alfafa, nem a cenoura, num o empurrão grosseiro pode mover. ò vida, ó ceus, ó glória. O calor ficou mais quente quando a respiração se tornou afagante. Como poderia estar vivendo tamanha experiência não digna. Eram óbvios os movimentos que deveria continuar fazendo mas a calculadora simplesmente parara. Nâo tinha mais como move-la, ela se negava. Ao apertar inúmeros números, num arroubo desesperançoso, esperava movimentar, chacoalhar, ela dava um tranco e pum, parava. ò não. ó não. ó não. O sol la fora continua quente, os passaros cantam em vários tons e reclames, as estruturas a vista continuam firmes, descolapsadas, ao contrário de tudo o que existi aqui. Parado, parado estava junto com a calculadora. Mas como ela poderia simplesmente se estafar dessa forma? Funcionava há anos fazendo os trabalhos mais subalternos da matemática, sen de 478, 6 vezes 33 46 divido por 12 raiz de -1 imaginada. Olhava para ela como se olhasse para o fundo de si. E ali viu. Viu um vazio imenso, intrasponível, irremediavelmente vacúolo do nada. E esse vazio estava cheio. Cheíssimo. Ó mais uma interjeição de ó, ó ó, o desespero, como pode um vazio estar cheio, repleto, sufocado. A calculadora engasgara pelo excesso de si? Nùmeros 9 8 7 enchiam, alguns parênteses esparsos, cossenos negativos e logaritmos na base 10 em profusão, o pi voando pra lá e pra ca, divisões, somas infinitas. Pois é isso, a calculadora parou de funcionar. Não há mais nada a fazer, o sol está escaldante, o vento agora entra um pouco pela janela iluminada, se a calculadora parara ele não pode mais existir, pois só existe em si e na sua labuta diária e sufocada. Pois é isso, não há outra opção além de olhar e ver o que está acontecendo nessa nova descoberta, o vazio. Ali descobriu que os números não estavam apenas ali, postos à esmo num buraco infindável. Mas eles se referenciavam constantemente, o 9 virava 6, o 8 se dividia e zerava, o 1 entrava no 0, e esses números quando encontravam um multiplicador ou um divisor transmutavam, viraram a soma, a divisão de si e se tornavam outros e assim a coisa ia indo assim, o vazio estava cheio e cheio ele se autorreferenciava e criava um mundo de cálculos próprios, onde a confusão dos algoritmos burburinhava, mas que não resultava em nada nem algum. ó mais um ó de surpresa e cálida pena de si, ó destino, um vazio cheio engasgado, repleto por todos os lados de informações absurdas auto referenciadas que travavam toda e qualquer contato real da calculador com o mundo externo. 
Calou-se as informações, foi treinado para solucionar problemas e assim começou a matutar, e sentou e refletiu e pensou: como resolvo isso como já sei vou ajudar a calculadora a se calcular e ali começou a somar dividir multiplicar subtrair elevar subdividir tangenciar logaritmar tirar a raiz somar de novo organizar os parênteses, deixar em graus em radianos até a décima potência elevou e após muito esforço suor, lágrimas, corridas, bufadas, profusões de suspiros, sentou para ver. Calamidade, calamitoso, calaminado ficou ao se deparar, os números, com seu movimento, ganharam ainda mais vida e movimentos próprios, agora eles estavam se somando e se dividindo e se multiplicando e .... cada vez mais e cada vez mais violentos, milhões e cifras e o vazio cada vez enchia mais e mais e os números sairam do grande buraco do vazio e tomaram conta do espaço e se multiplicando toteamente começaram a sufocar o visualizador e criador e propulsor de tudo isso. E eles começaram a cair pelos seus pés e foram subindo e tomando o mundo ao seu redor já estavam na linha do umbigo e era uma inundação irreprimível irreparavél selvagem violenta, furiosa. Agora nem ó mais temos tempo pois a morte parece estar vindo a galope os algoritmos já estão na linha do pescoço e se apertando contra seu peito está difícil respirar, mas ele continua calculando, olha para os números e acha que ao resolve-los eles sumirão e soma e divida além do que naturalmente já acontece e de repente nota que os números ja entram na sua boca entreaberta e ele é obrigado a fecha-la. Subiram estão no seu nariz meu deus como vai respirar está sufocando os números eles são tantos será esse o fim final? morto afogado pelos números infinitos irretocáveis incalculáveis. Já totalmente submerso nos números vê toda a vida se depara com a existência lembra do seu cachorro, da sua ultima corrida, do peso mais pesado que carregou, daquela vez que subiu num pódio, quando levou um socão no nariz e saiu cuspindo sangue pela rua, quando descobriu o que queria, quando viu que o que queria não era mais o que queria. toda a existência passou sobre sua cabeça, como a dimetiltriptamina que entra na sua corrente sanguínea antes da morte certa. Os números se multiplicavam farfalhando num arroubo de orquestra e finalmente, submerso e vencido viu que não adianta mais lutar. Com a respiração trancada, decidiu respirar e os números iam adentrar a si e morreria afogado, afogado no excesso que enchera o vazio da sua calculadora. Respirou. Respirou fundo, Respirou profundamente como nunca dantes e fechou os olhos. Respirou de novo, respirou profundamente, como nunca dantes no quartel de abrantes. E fechou os olhos. E na terceira respirada. Quando enxergou novamente seus grandes pulmões de atleta, com os olhos fechados, notara que a vida ainda pulsava no seu pulso, e não começaram o processo doloroso do encontro com a morte. A morte. Ó! Estava vivo, e era tão bom e de talento respirar. E assim ficara, quem esta preparado para o fim, quando descobre a vida pulsando nos pulmões, simplesmente se dilui em alegria pelo simples ficar e existir. Respirando, fechado, respirando. Passara muito tempo Muito tempo. Deus em sua benevolência poderia ter criado outro planeta, outra existência, obviamente pois ele cria com um piscar de dedos. E respirando com os olhos fechados, abriu os olhos. Viu o vazio, viu os números, eles já não o sufocavam, o portentoso e infinito vazio não estava mais tão cheio, numa calma que se mostra claramente no andar deste escrito, os números se controlaram, Ainda estavam em profusão no vazio, mas agora o vazio tinha muito mais espaço para o nada. E o nada se mostrava glorioso, lindo, espectral, um nada cheio de vida pois a vida não preenchia todo o nada. Os números não pararam, nunca pararão, se multiplicando e se dividindo infinitamente, mas o vazio agora tinha espaço. Lá fora calor ainda amassava sua existência, mas ao sentar novamente defronte da calculadora e apertar o botão on, em seu visor pálido de aparência nada tecnológica o zero apareceu. 

26 de nov. de 2025

Antagonista

14:13
Em uma tarde de calor estonteante, sob um sol maravilhoso e um céu azul de tão azul. Nos deparamos com mais um entendimento. O entendimento de buscar a escrita, rapida, completa, sagaz, para entender os processos. Olho para as telas e resolvo pontuar a situação que elas me colocam. Olho para o outro e busco responder e explicar nuances do eu, olho para a solidão e procuro explicar o sentimento do vazio. Olho para o vazio e vejo, vejo nada, desvio o olhar para que não o observe. olho para a tela. 
Pois bem, há um lapso de criatividade e falta de exultação nos compromissos cotidianos há algum tempo. Procrastinação e abuso de telas. Mesmos problemas. Mas esses textos aqui não são para choramingação pura e irrestrita, e sim para mostrar o espelho da realidade através de histórias discorridas. Esta história é sobre os pensamentos solares do sol. O sol, quente e brabíssimo em seu resplendoroso céu sabe realmente que sua existência é a existência de todas essas criaturas pensantes na sua órbita. Criaturas estas de todos, TODOS os tipos, das quais as mais (complexas?) estão numa situação diferenciada. Pois o sol aquece a todos e gera energia forte e constante, mas as criaturas hoje se alimentam muito mais do calor de telas, telas escuras onde é colocado uma partícula de sol, para que brilhem para olhos dissonantes. Mas seriam as telas o antagonista desta história solar? Pois duvido. As telas são apenas um sintoma. O sol sendo exímio ser luminoso que rege a tudo deve ter um antagonista forte o suficiente. A escuridão? Mas essa escuridão é a mesma que se silenciam com as telas. Da escuridão se foge para as telas. Então a escuridão também não é, mas a fuga da escuridão. A fuga, a fuga da escuridão ou a fuga do sol? Fugir é o ato de se escapar de algo que está acontecendo e se sucedendo. Seria nosso antagonista apenas a negação da ideação do sol? E essa negação do sol leva também a negarmos o contato às sombras? A fuga é a causa ou é mais um sintoma? A fuga seria um sintoma do que? Foge-se do sol, consequentemente foge-se da sombra, para não se visualizar. Visualizar o que? Foge-se do que? A fuga e a cadeira à sombra são companheiros. Esta cadeira (sentado novamente) parece ser um refúgio muito concreto, tanto do sol, quanto da sombra. Esta cadeira não pode ser a fuga pois a fuga é corrida? a fuga é movimento? assim como a morte, que não é estagnação? Qual a relação entre a vida da cadeira, a fuga, as telas e a morte? A morte seria o balizador que apita que há algo errado na vida?? Errado? Sentar-se à cadeira, ter comida infinita, buscar prosperar, as vezes mais, as vezes menos. Esta é a vida, movimento. Mas a vida da cadeira esconde-se do sol. E aparentemente esconde as sombras. É uma catatonia. O movimento é quem salva? Temos um cantor de uma música só. O movimento salva, mas movimento sem direção é fuga. O sol a escuridão parecem ser do mesmo "material". As telas e a cadeira são de outro material. E a fuga é outro material. Como diferentes espécies desta história, relacionadas mas totalmente diferentes. O sol e a escuridão são o caminho do movimento à morte. As telas e a cadeira são a fuga, a fuga da transmutação da energia da sombra em sol. Movimentar os medos e receios da sombra para o sol. Mas a cadeira é um porto seguro. Fugir da cadeira e das telas não parece uma opção. já que fazem parte do processo de comida infinita. Mas parar de fugir do sol e das sombras através da cadeira e das telas é a cura? Cura? Estamos buscando o antagonista, o antagonista do sol, mas aqui só tem eu, só tem eu. Até o sol sou aqui. Onde está o antagonista de mim?

14;34 - escrito em 21 minutos

11 de nov. de 2025

flores brancas da morte

Este texto será escrito em 20 minutos:
Seu espirito estava combalido. Após um dia constante de movimentos, grandes escaladas, discursos acachapantes, ele sentou e resolveu colher flores: flores para um ser que ele achava que existia junto a si, mas que precisava testar. Sua perspctiva é que estava colhendo flores para uma criatura viva, mas morta. Morta mas que já não respirava. Não que ela não respirasse e estava realmente morta, mas para a realidade que estava imaginando criar, ela já estava enterrada. As flores eram brancas, vivas, viváceas e cheirosas. Mas como poderia ele acertar na escolha das flores para um ser morto? Teria alguma diferença entre carregar flores e não carregar? haja vista que aparentemente, o presente nascera passado. A indiferença da respiração contrastava com o olhar certeiro que a criatura entregava ao receber as flores, vivas, mas que ao serem arrancadas, já estavam mortas. A criatura ou as flores? Antes de colher as flores, refleti sobre a constância da vida das mesmas, elas seriam entregues para uma pessoa viva ou para uma pessoa morta? Ela seria entregue para uma resposta e para uma pergunta ou para uma afirmação de cabeça? Ela seria para um cadáver ou para uma vivaz e sorridente criatura. Não sendo repetitivo, a criatura estava viva, permanecia viva, com sua respiração ritimada, seus exercicios, sua realidade intacta, cujo eu, buscava atingir com as flores e a presença, torta, suada, pestilenta e espinhenta que carregava flores. Estas flores, foram colhidas com sorrisos, entregues com ansiosidade, recebidas com animosidade. por uma criatura viva ou uma criatura morta? Fez-se a questão, ao serem entregues, as flores estavam com as mesmas cores da criatura, um retrato pálido e branco acertado, a lua também estava lá, palida, sem nebulosidades lhe atravessando as vistas. Diferente do meu olhar para a criatura, ou do olhar da criatura para mim, o coletor e carregador  das flores brancas. As flores levaram a uma conversa, intensa, movimentada, informações trocadas sobre a vida da superfície. Assim como pequenos crustáceos, que parecem aranhas, que vivem sobre a superficie da água, tocando suas delgadas patas ee não quebrando a tensão superficial da água, assim foi a conversa pós flores. Rastejando sutilmente sobre a superfície, molhando as pontas dos dedos e nada mais, assim foram as conversas sobre as flores. Se dedicassem a falar do acaso das flores estarem mortas ou vivas, talvez fosse mais produtivo. Mas não era pra ser produtivo, era apenas para serem flores. Flores que pairam na dúvida, os seres que confabulavam estavam realmente vivos? Presentes no olhar ou fugazes, buscando na vida a fuga da morte. pois o presente não vivido é apenas um dedilhar da morte, sejam das flores ou sejam dos vivos. A criatura parecia viva, mas trabalhava com a morte: qualidade. Era o que a criatura cuidava, qualidade da morte. A criatura que recebeu as flores, sabia mais do que ninguém se as flores estavam vivas ou estavam mortas, se o entregador das flores estava viva ou já surgiu morto, e se a vida que lhe deparava na frente era uma vida de vida ou era só um resquício pálido do brilho de seu próprio cadaver. Já as duvidas de quem realmente arrancou a vida das flores eram todas, não sabia se estava vivo, se a criatura estava viva para si e se as flores estavam vivas para os dois. Ó dúvida, talvez o destino tenha sido diretamente a morte, nem água nem brilho, nem iluminou nada. As flores foram arrancadas e entregues em algo que nasceu vivo, mas que o brilho de um silêncio e um desprezo pela vida, simbolizaram que estava realmente morto. A repetição da vida e da morte, em que a serpente se alimenta da propria cauda, numa busca por si, na busca pela vida a serpente investe e encontra a morte, pois a vida é o próprio movimento da serpente, que ao colher flores para criar vida, encontra morte, num ciclo morimbundo. A palidez do encontro, sutil sob as águas da vida e da morte, encontra a efermeridade de um espelho escuro, onde tremem mensagens confusas e tentativas de vida, que sob um olhar, que tenta impavidamente manter a vida das flores, nem nota que ao arranca-las, acabou de decretar a sua morte. E contentes devem ficar ao ver, que existem flores que devem ser arrancadas, pois sua seiva consome demais a evolução de toda a planta, não está na hora de florescer, está na hora de vicejar. As flores brancas foram arrancadas e ali encontraram a vida, e ao serem compartilhadas, foram testemunhas e criação de uma conversa de mortos. Entremeados no proprio ser, engolfados pela superfície. Estão vivos, mas o que existe é a morte, seus corpos e corações não baterão uma vida.
Escrevo isso, e termino com uma esperança, as flores são arrancadas para dar folga às raízes. A vida é esperança, e o que se chama de morto é apenas: descanso