27 de jul de 2015

Salvação pela Macrobiótica

Fritou primeiro as cebolas depois de copiosamente chorar para corta-las, aproveitou as lágrimas que lhe rolavam pra rolar mais lágrimas que não eram das cebolas, mas sim do riso choroso que há dias lhe acompanhava numa êxtase emocionada. O alho que fedentina seus dedos pra todo o sempre já exala seu odor sudoríparo ao ser levemente frito no fogo azul brando em companhia dos prismas cúbicos das cebolas. Todas suas atenções se voltam pra manter o ínicio da concepção do refogado enquanto a mente vaga pelos recônditos das suas lembranças passadas que são constantemente refletidas para um imaginado futuro cheio de bem feitorias para o personagem que retrata-se nesse relato. A cenoura já ralada por uma ferramente contemporânea concebida de polipropileno e metal ganha suas vezes de ir ao quente habitat que rotineiramente tem as honras de ser o altar da geração de reuniões de diversos ingredientes que juntos formam algo, que os humanoides da época em que funda-se esta história é chamado de 'comida' ou até de 'prato',  apesar do prato em aqui em questão  não tratar-se do utensílio de porcelana usado para fazer a separação do alimento pro resto do mundo bacteriológico, mas sim da junção dos ingredientes previamente colhidos e manejados até a mão do ser que fará a coesão de todos esses diferentes sabores para a concepção de um trabalho que, mesmo com a possibilidade de seguir uma receita pré concebida, invariavelmente não será idêntica uma à a outra por nesse caso se tratar de um agente misturador faminto, também em vias mais ortodoxas pode ser chamado de cozinheiro, que não se afeiçoa muito em padronizar os pesos e medidas dos ingredientes. O prato então, já ganha ares de refeição devido primeiramente ao cheiro que já engolfa as narinas que alcança e à cor amarela alaranjada que as bençãos da cenoura trouxeram. O manufator então, com o poder do controle do fogo que as glórias do século XX trouxeram com o advindo da máquina fogão e da grande expansão mundial da retirada dos combustíveis fósseis da profundíssima crosta terrestre que ao fazer-se trabalharem em conjunto, trazem a salvação  de um n números de estômagos, sendo eles de faceta humana ou canídea ou felina, e apesar dos dois últimos serem acostumados com os restos provenientes da saciedade dos bípedes sentem-se aparentemente  felizes e cheios de gratidão por participarem desse importante processo cíclico de combate à fome. Antes da divagação e também por causa dela partindo-se do fato que a relação do agente cozinhante com o agente cozedor é bastante íntima sendo um ato mentalizado do primeiro torna-se facilmente absorvido pelo segundo agente a partir de um processo de interação física multi-macrocelular, o controlador o chefe o cozinheiro em sua semi plenitude mental e com o auxílio de uma interação intra neural decide-se por abrandar o fogo, pois o tempo cronológico concebido pra padronização dos seres pensantes não tem controle sobre todo esse feitio aqui relatado, devido à falta de compromissos posteriores. Por isso e pelo fato das abobrinhas ainda não estarem devidamente descascadas por ausência de uma terceira figura na história, com pode-se ver só há duas, o mestre manufator e o tal do narrador, faltando uma criatura responsável pela preparação do alimento pra uniformização da sua estadia na panela ou citando no bom e velho portugues, alguém pra picar as parada. Então no sagrado local em que se encontra o único dos personagens, os alhos a cebola a cenoura e a abobrinha apesar da inegável importância no contexto aqui descritos não são contempladas com o título de personagem devido à incapacidade dos mesmos em conduzir o seu destino, servindo apenas como ferramentas vivas para a locupletação de uma meta, um fim que talvez suas deduções vegetais compreendam e até aceitem por ser parte indelével de suas vidas, assim como foi a dos seus antigos antepassados que já reconheciam que é melhor servir de alimento que viver uma vida em vão, é claro isso tudo trata-se de uma dedução positivista da aceitação dessas verduras (aqui uso de liberdade poética, não se trata de verduras, no uso requerido elas sequer são verdes) do seu destino imageada por um intelecto que não sabe como é viver a vida das cenouras mas quer acreditar que elas benfazem-se nesse uso egoísta, pois então, mesmo não possuindo um viés de personagem, sob um fogo que antes era feroz e agora já é brando as cenouras alhos e cebolas põe-se a estalar e a chiar levemente, como se arrependessem de nascer o que são, reclamando discretamente e numa atitude bastante rebelde começam a querer aderir à panela que as coze. Triste seria a sina do cozinheiro se ao cortar as benditas abobrinhas em seu silêncio assoviante não escutasse tal gemido chiador que amplifica-se pelas curvas da panela, mais triste seria se não soubesse interpretar esse grito corriqueiro do processo aqui destilado, surpreendido seria por vegetais carbonizados, o que tornaria o dia do personagem muito ingrato, padeceria de fome pelo seu paladar não estar compatibilizado com carvão. Mas como esse ser, se não é penteado nas artes da culinária ao menos é sabedor de algumas nuances importantes, conhece inclusive muito bem esse barulho inconfundível da fritada e sabe lutar contra isso. Com o auxílio de uma ferramenta peculiar que possui uma tromba mas nem de longe parece-se com um grande mamífero o personagem coloca mais uma variável na equação comida: o solvente universal, a água. Há muito o que citar sobre esse importante recurso mundial e por que não universal, mas devido às altas taxas pluviométricas da região não haverá aprofundamento de tal questão, por óbvios medos de afogamento, cita-se apenas que devido à experiência do agente cozinhante a quantidade de água que passa a participar da feitura da benção alimentar não é grande, servindo para matar a sede apenas no caso em que ela aparece muitíssimo pequena. O acréscimo dessa ínfima parcela de rio acalma os afoguentados ânimos dos cozidos, e a ampliação das suas relações com o acréscimo da abobrinha já devidamente picoteada não trará novas gritarias de fritura, devido à umidade com que o último não-personagem trouxe ao relato. Essa é a hora então, que todos os ânimos se acalmam, a panela completa-se ganhando uma tapa que perfeitamente encaixa em sua bocadura, e todos os (as) personagens têm tempo de matar a sede da tradição sugando a gloriosa erva que misturada e preparada com água quente é essencial na vida dos que assim o querem que seja. E eis que chega o momento em que todos caem na armadilha da própria vaidade, por amor do próprio ego do paladar e do olfato o mestre cuca começa a praticar sua magicka bruxaria. Alecrim, Manjericão e Manjerona, três substantivos próprios que conduzem o ser humano ao pecado da gula e ao amor infinito a esses dois orgãos não opostos mas sim complementares, o nariz e a língua. Sorrisos esvaem-se e até gargalhadas podem ser soltas nesse novo panorama que vive-se nesse ambiente antes perfumado mas não tanto quanto agora, em que as benção de Pachamama entram em verdejantes formas pelos narizes e não saem mais. É nesse abençoado - usando de uma expressão mais popular e adorada pela geração do novo império - feeling, pode-se usar até mesmo ''vibe'' o que não seria de todo ruim, que o trabalho continua. Chega o momento da cuidadosa esfolação dos vermelhíssimos tomates que se verão despidos de sua carapução exterior, sua pele que cria uma digníssima fronteira entre seu interior e o resto do universo desconhecido, devido à planos superiores do mentor disso tudo que deseja não ver o tomate em sua comida. Não que seja haja uma rixa com tal fruto ou indisposição ao vemelho de sua pele o coccinero está é interessado no bendito molho que tal fruta libera ao ser exposta às quentes, porém brandas, chamas que fornecem energia calorífica ao recepiente advindo de alguma das revoluções industriais do qual não entraremos em méritos maiores. Agora já há água em abundância na panela, mais água que certas cidades que lambem a imaginária linha do equador recebem dos céus em certas temporadas, a abobrinha quase inexiste, o que dirá da cebola que cada vez está mais virada em molho e do alho que deixa só se torna visível por um complicado processo sinestésico e por isso em decreto amplamente aceito por todos os eus que compõem o ser que aqui transforma duros vegetais em deliciosas refeições a tampa deixa de ser necessária. A hecatombe sensorial chega com mais força, a peia sofrida pela fome agora entorta as orelhas do envolvido graças à bela composição do batalhado, porém não suado, 'prato' que já está em viés de começar a deixar de existir, a mesa do jantar já está posta, o garfo colocado devidamente ao lado do da tigela redonda que também gostamos de chamar de prato, a salada devidamente não temperada, anteriormente esquecida neste relato por não sofrer o processo de cozimento tão aclamado já faz suas últimas preces pois de relance imagina o seu fim, ou a sua transformação em energia para a sobrevivência de um ser com maior mobilidade neste mundo, encontra-se deitada em berço esplêndido em outro prato projetado de última hora para abriga-la. Diagnosticado o sucesso dentro da panela o corta-se o gás que alimentava o fogo azul e as bolhas que saltavam por entre os participantes da junção alimentar já diminuem consideravelmente a intensidade das suas ocorrências. Pega-se a última ferramente necessária para a completa deglutição que só é estritamente necessária devido à necessidade de contemporizar a sua existência e que terá a leve responsabilidade de levar a comida da panela até o prato: chamam-na colher. Agora sim, sentado defronte a mesa  com o preparado já servido ao prato do lado da salada há a primeira observação do conjunto da obra. Vê-se que é bom é bonito. Come-se. Sente-se como já pode ler-se que o sal foi esquecido.

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